Sociedade de Beneficência Hospital Matarazzo

Patrimônio Histórico na Bela Vista:  O Hospital da Societá Italiana de Beneficenza in San Paolo (Sociedade de Beneficência Hospital Matarazzo)

Apesar de existir há mais de quatro séculos, foi somente a partir do final do século XIX que a cidade de São Paulo sofreu um intenso processo de urbanização, impulsionado, sobretudo, pela consolidação da  produção econômica agroexportadora baseada no trinômio café – ferrovia – imigrante.

Também nesse período de intensa corrente imigratória para o Brasil, a crescente imigração italiana em direção à cidade de São Paulo contribuiu para a fundação, em 1878, da Societá Italiana de Beneficenza in San Paolo, criada com doações arrecadadas de grupos empresariais de origem italiana. Esta instituição prestava serviços de assistência médica aos milhares de imigrantes italianos menos favorecidos que se fixavam na cidade, chegando a inaugurar em 1904 um novo Hospital e Maternidade Humberto I (Primo) no atual bairro da Bela Vista.

Sociedade de Beneficência Hospital Matarazzo

Sociedade de Beneficência Hospital Matarazzo
Créditos: Edimilsom Peres Castilho

Anteriormente à construção do hospital na Bela Vista, a Societá di Beneficenza in San Paolo realizava atendimento médico em edificação erguida em 1892 na esquina das Ruas Major Diogo e São Domingos. Sua arquitetura de estilo neoclássico foi projetada pelos engenheiros italianos Pucci & Micheli, ambos responsáveis pela construção do conjunto hospitalar da Santa Casa de Misericórdia no centro da cidade em 1884. Entretanto, o pequeno hospital funcionou nesse espaço até 1899, quando sua reduzida dimensão tornou-se inadequada para atividades hospitalares. O novo edifício hospitalar da Societá di Beneficenza in San Paolo foi então erguido em um terreno de 27.490 m², situado nas proximidades da Avenida Paulista, entre as atuais Ruas São Carlos do Pinhal, Itapeva e Alameda Rio Claro.

Sociedade de Beneficência Hospital Matarazzo

Sociedade de Beneficência Hospital Matarazzo
Créditos: Edimilsom Peres Castilho

Uma década depois, o beneficiador mais ilustre da Societá di Beneficenza in San Paolo, o empresário Francisco Matarazzo (1854-1937), contratou o arquiteto italiano Giovanni Batista Bianchi (1885-1942), autor do projeto de seu palacete na Avenida Paulista, para a construção de um novo edifício no mesmo terreno, para abrigar a “Casa de Saúde Francisco Matarazzo”, concluída em 1915.A primeira edificação do terreno foi concluída em 1904 com projeto de Giulio Micheli (1862-1919). Não prevendo a expansão do complexo hospitalar, o edifício com estilo arquitetônico florentino e atualmente conhecido como “Pavilhão Administrativo”, foi implantado na parte central do terreno, dividido em duas alas com capacidade para 100 leitos.

Na década posterior, foi construída a “Capela do Hospital” em 1922, dedicada à Santa Lúcia, padroeira da família Matarazzo, e em 1929, foi concluído a “Casa de Saúde Ermelino Matarazzo”, todas as edificações seguindo o mesmo padrão arquitetônico do primeiro edifício. Ainda na década de 1920, foi erguido o “Pavilhão de Ambulatórios e Residência das Irmãs” e, em 1937, foi construída mais um edifício no complexo hospitalar, o “Pavilhão Vitório Emanuele III”, ambos com arquitetura neoclássica.

Na década de 1940, Francisco Matarazzo encomendou mais um edifício para integrar o complexo hospitalar, a maternidade nomeada “Condessa Filomena Matarazzo”, em homenagem à esposa do empresário. Projetada pelos arquitetos italianos Francisco Verrone e Mário Calore, a imponente maternidade com arquitetura neoclássica foi concluída em 1943, apresentando proporções construtivas simétricas e moderada ornamentação nas fachadas, características da arquitetura italiana da década de 1930. Nas décadas posteriores, a maternidade tornou-se reconhecida como uma das melhores maternidades da América do Sul.

Sociedade de Beneficência Hospital Matarazzo

Sociedade de Beneficência Hospital Matarazzo
Créditos: Edimilsom Peres Castilho

Com exceção da capela e da maternidade, todos esses edifícios descritos anteriormente, são interligados por um extenso corredor horizontal que articula e integra todas as unidades. Permanecendo sempre em ampliação para se adequar a grande procura de atendimento hospitalar, o complexo hospitalar foi ganhando novas edificações nas décadas seguintes, porém com características arquitetônicas heterogêneas “consideradas” pouco expressivas, apesar de conservarem o registro de inúmeras atividades indispensáveis ao funcionamento hospitalar.

Com o primeiro edifício inaugurado em 14 de agosto de 1904, o complexo hospitalar então conhecido como Ospedale Umberto I (Primo), exerceu papel de destaque no atendimento médico e hospitalar da população imigrante e demais trabalhadores de baixa renda da cidade, especialmente no período em que a assistência médica pública era bastante deficiente. No ano de 1939, o complexo hospitalar foi registrado como Sociedade de Beneficência Hospital Matarazzo e Casas de Saúde Matarazzo, tornando-se, nas décadas posteriores, uma instituição pioneira na modernização das atividades hospitalares da cidade, nos estudos da ciência médica e na formação de profissionais da saúde, chegando a ser o primeiro hospital a sediar um banco de sangue no estado de São Paulo. Em 1993, o Hospital e Maternidade Humberto I foi fechado e teve suas atividades suspensas pela vigilância sanitária municipal.

Devido sua extrema relevância na formação histórica da cidade de São Paulo e no atendimento hospitalar de sua população, o Hospital e Maternidade Humberto I teve seu complexo hospitalar tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo, por meio da Resolução Sc 29, de 30 de julho de 1986.

Esta Resolução previa diversos níveis de preservação para o complexo arquitetônico, sendo até bastante rígida, classificando alguns edifícios com grau de preservação integral, como a Capela do Hospital e a Maternidade Condessa Filomena Matarazzo. Quanto aos edifícios construídos entre 1904 e 1937, foram classificados com grau de preservação de fachadas, coberturas e gabaritos.  Os demais  edifícios, construídos até a década de 1970 e destinados aos serviços de apoio ao hospital, foram enquadrados com grau de preservação da volumetria. Para efeito desta Resolução, ainda foi previsto como área envoltória o quarteirão delimitado pelas ruas São Carlos do Pinhal, Itapeva, Pamplona e Alameda Rio Claro, incluindo diversos lotes com moradias particulares situadas na divisa com o terreno do hospital.


Mapa com a localização e a ficha técnica do imóvel


Referências:

Legislação:

SÃO PAULO. (estado) Resolução Sc 29,  de 30 de julho de 1986.  Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo – CONDEPHAAT. Disponível: Prefeitura de São Paulo

SÃO PAULO. (município) Resolução nº 22, de 10 de dezembro de 2002. Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo – COMPRESP. Disponível em: Prefeitura de São Paulo

Artigos publicados em sites:

Arquivo Histórico de São Paulo. Hospitais paulistanos: do século XVI ao XIX . Informativo 29. Disponível: Arqui Amigos. Acesso em: 23, jun. 2016. Acesso em: 02, jun. 2016.

Blogger Hospital Matarazzo. Que os desejos dos ricos se reverta na saúde dos pobres. Disponível: Matarazzo Blog. Acesso em: 05, ago. 2016.

Blogger Família Ayres. Ruth de Lima Patricio, a enfermeira do Hospital Matarazzo. Disponível em: Familia Ayreson tem hoje sempre. Acesso em: 05, ago. 2016.


Cita: Edimilsom Peres Castilho, "Sociedade de Beneficência Hospital Matarazzo," em sppatrimônio Brasil, 26/12/2017. Acessado em 24/05/2018.<http://www.sppatrimonio.com.br/sociedade-de-beneficencia-hospital-matarazzo/>

Edimilsom Peres Castilho

Doutor e Mestre em História Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP). Graduado em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). Membro e pesquisador no Instituto Bixiga de Pesquisa, Formação e Cultura Popular – IBPFCP.